Friday, 12 April 2013

Como foi atrasada pela chuva tanta


Começar com o desejo súbito ao passar no jardim onde brinquei, dar a volta, que tantas vezes dei, ao hospital, e descobrir as ruas que tiveram nomes diferentes. Como a avó dizia "vamos ao corpo da guarda, às carmelitas, ou à praça de santa teresa, ao moinho de vento ou a carlos alberto" ... e eram tudo nomes que ouvia sem os perceber, se o senhor guarda tinha corpo ou se até, eventualmente, alguém estaria pendurado ainda na "árvore da forca" - no jardim da Cordoaria - e às "portas de um olival".
Como o tempo era pequeno!

Por aqui desciam e subiam os meus pais, a Rua 31 de Janeiro. Anos e anos. Às vezes a correr, quando a polícia policiava a liberdade e dispersava os grupos à bastonada ou com carros de "água azul".
Por aqui andei eu: lembrada do pomar (dir-se-ia gourmet agora!) da Aveleda, do "Espelho da Moda".

Na sombria Rua dos Caldeireiros, o resistente altar de Nossa Senhora da Silva.


A rua onde se iam comprar as botas de pneu, os socos de sola de madeira que se mandavam solar, e os "silenciosos", sapatinhos redondos da minha memória. A avó neles como uma andorinha.




(faltava-me dizer, nesta escalada de memórias em andando à volta, que algures neste quarteirão existia - se existe? - um lugar onde me cortaram o cabelo, aos 9 ou 10 anos - e me fizeram uma "mise", um ondulado leve. Gente que gostava muito duma "menina", gente belíssima e boa. O meu pai nunca mais lhes falou nem me deixou "dar-me" com eles. Pelas malhas que o destino e a cidade tece, hoje brinquei com o bisneto desse casal, com o amor com que eles brincavam comigo.)
























E que pensaria a avó do talho da torre, deste mercado do anjo transformado?
Onde se diz "since 1971" como se fosse um título de nobreza e ancestralidade!


Dizendo adeus à Páscoa e o alvoroço que me trazia "antes", com o sol e as amêndoas. As delicadas, as de licor, tão parcas. Aqui a (também) resistente fábrica delas, a Arcádia.
***
Recomeço: a chuva tanta que foi atrasando a vontade de soltar os dias e os olhos.
Assim, tal qual, o Porto e a Torre dos Clérigos a que nunca tinha ido, por isto ou aquilo.
Muitas décadas depois; e 240 degraus mais 75 metros de altura.
Construída pelo arquitecto toscano Nicolau Nasoni, a Igreja e Torre dos Clérigos é um ex-libris da cidade. Foi iniciada a construção do conjunto Igreja e Torre em 1732 e ficou concluído aprox. em 1763.
Em granito e mármore, a espessura das paredes do 1º andar atinge os 2 metros.
(fonte consultada: IGESPAR).

Ver as datas e situar a História, os sinos, a sobriedade do relógio que nos marcou os dias (minha mãe e eu nascemos ali perto), as escadas, a espiral por dentro, a cidade acocorada no antigo burgo junto ao rio e estendida para todos os pontos cardeais, caótica de prédios apontados às nuvens, as ilhas de verde quase submersas.

Procurava as clarabóias do Porto.
Desde pequena que olhava os tectos, as escadas, à procura da luz-liz.

1 comment:

  1. À volta da memória. Como num carrocel. Um misto de alegria e mágoa. São tão curtas as voltas dos carrocéis...

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