Sunday, 11 July 2021

Semana de Alentejo (mais profundo) IV

Pouco passava das 5h da madrugada. Irresistível sentir no olhar o erguer da luz e a vibração dos primeiros sons.




Manhã transparente, de piscina e campo. E pássaros.



 
 
Vila Viçosa que até o nome traz significado de coisas a crescer, verduras e flores! 


Para lá se vai, passar o dia e passear as vistas.

O Paço Ducal de Vila Viçosa, pertencente à Casa de Bragança, de fachada em mármore, com a estátua de D. João IV no amplo terreiro. Ao fundo, a torre da Capela Real. A predilecção de vários dos nossos reis por estadias no palácio, transformou-o num lugar de esplendor, mítico e museológico. Visto nos mapas se percebe o imenso terreno de caça e o porquê de tanta fama real. Moroso e algo redutor ver tudo, em visitas programadas e guiadas. Assim, ficam apenas apontamentos do que foi relevante e acessível.

Antigos Igreja e Convento das Chagas, ao lado do Palácio, transformados em pousada
Espreitando os jardins com "olhos de pavão"


A azáfama e roçar dos aventais das criadas e o sussurrar dos vestidos das damas, foi o que pensei ao ver estes trens de cozinha dos mais diversos formatos.






Não temos "reis" mas temos proprietários de casas reais, com espaços e mordomias apenas acessíveis aos nobres. Infelizmente, penso para mim que, em grupos de "beneficiários" a esmo, poderei incluir políticos, futebolistas, banqueiros, donos e senhores, disto e daquilo.


Saturday, 10 July 2021

Semana de Alentejo (mais profundo) III

Descobrindo lugares "nunca dantes navegados". Mete-se por estradas desertas, no meio de campos, rumo a Vila Fernando. Uma história curiosa, a dessa aldeiazinha perdida nos caminhos, com 3 centenas de habitantes. As notícias que encontrei falam de um antigo estabelecimento Colónia Correccional para jovens delinquentes a ser recuperado; e que a calçada de algumas ruas foi conservada sem alcatrão para preservar a lentidão e o sossego contra os frenéticos da velocidade. Algures no caminho se cruzou o Aqueduto da Amoreira e não se entrou sequer na cidade de Elvas. Também ele tem cerca de 8km de comprimento, em algum sítio o veríamos: foi iniciada a sua construção no séc. XVI.



Enfim, anoitecia e pouco se pode ver da povoação, célebre pela harmonia de conjunto e grandes chaminés




Mas degustar - e tudo-ver - na Taberna do Adro foi um primor! A comida era trazida em pequenas porções e a variedade era muita, desde a perdiz esfiada até aos pézinhos de coentrada, passando pelos enchidos braseados, o queijo e o pão divinos


(desta vez ainda não... mas há-de chegar a época de fotografar tudo o que se come. Pela cor, pela lembrança, pela invulgaridade dos sítios e hábitos das gentes)

Achei bonita a decoração que dizia "Coisas da minha gente", um conjunto de coisas, algumas vulgares, mas de que eu entendi exactamente o sentido estético e emocional de ali se exporem






E sai-se pela noite e vila adentro




Há inúmeros lugares onde passei e onde gostaria de "voltar" a passar e, melhor, a estar.

 

Friday, 9 July 2021

Semana de Alentejo (mais profundo) II

A manhã de "amanhã" era esperada, pelo cantar dos pássaros e a sofreguidão da luz nascendo

Não é lugar aqui para a minha cara, em roupão e chinelos, colhendo as flores e ramos dos taludes húmidos, ao sair da porta
E a volta pela herdade
vendo o rebrilhar do xisto

As casas antigas à espera de reconstrução e como as vi, por fora e por dentro. Visitando respeitosamente os fantasmas da gente humilde que ali vivera, a nudez forte das paredes, a secura dos verões, a agrura dos invernos. A solidão.

Não sei se seria possível mas para "arquitectos" há sempre ideias com hipóteses: se tivesse dinheiro vivo e actuante, recuperaria o mínimo do exterior da casa velha, para que não se esboroasse. E faria, por dentro, uma casa nova, conservando o máximo do que ali existiu. Os acrescentos em vidro para ver as estrelas, estufas com verdes e troncos, e estrados de madeira para os serões de beatitude. A felicidade, que não sabemos, de poder sonhar sem pagar pelo sonho.


O passeio pela herdade

Ali adiante "é" Espanha...
e aqui a ribeirinha que lá vai, lá vai, entre tremuras de água e pedra, até desaguar no lânguido Guadiana

Os bichos felizes, entregues à natureza-chã, e sem se interrogarem, Nós falámos com eles mas nada lhes dissemos do futuro.