Wednesday, 12 January 2022

Os mares do Norte - IV

Tentei encontrar alguma sequência nas fotos desta volta última, em terras da Galiza. A costa norte, a seguir a Vigo, é tão extraordinária! (recorrente é o meu pensamento que D. Afonso Henriques bem podia ter pelejado mais acima...). Toda recortada em praias, baías, penínsulas, cabos e promontórios... Alguns sítios já conhecidos de outros passeios àquela zona. Lembrados os lugares e terras por razões várias e passeios que o tempo foi acumulando. 

(Mais acima chamam-lhe a "Costa da Morte" pelas correntes fortes que ali se fazem sentir. Disto me recordo pelos mortos na queda da ponte de Entre-os-Rios, em Março de 2001, e por ter lido que é/foi um lugar de inúmeros naufrágios)

Falo aqui da beleza e de alguns lugares que gostaria de revisitar. Há tanto para ver por ali!




O passeio a pé foi por aqui




Sendo parte paisagem protegida, as aves marinhas estão presentes, como os corvos secando as penas nos rochedos e as gaivotas em arraial
Toda a zona é de pescadores, de apanhadores de marisco e outras espécies marinhas, às vezes com grande risco como dependurados nas rochas para apanhar os percebes, lapas ou mexilhões. É lugar de peregrinações que as gentes em aflição se apegam aos deuses e à corte celestial. Não me admira e compreendo que seja um lenitivo para a dureza da vida.



Vai-se seguindo...



Monday, 10 January 2022

Os mares do Norte III

Maio e Setembro são meses que (nos) dizem muito. Tenta-se passar os dias "especiais" em qualquer lado que sublinhe os encontros e os aniversários. Vigo, Samil, trazem-nos boas e antigas recordações. Agora, há anos que não vamos a esses lugares. Conhecemos a zona e a cidade a preto e branco, fim dos anos 60, quando ir a Espanha era tanto uma aventura como ir ao "estrangeiro". A primeira vez que ali "estacionámos" uns dias, com um amigo que não podia passar a fronteira portuguesa, foi em 1972, e tem-se sempre gosto em voltar. Nos anos 80, estávamos "três tristes tigres" acampados no Pinhal da Gelfa e chovia, com tão mau tempo e humidade no meio do pinhal... que fomos a este mesmo lugar: estava sol! Com a novidade de estar a beira-mar tão bem arranjada e acolhedora que era um prazer ali passear. 

E, é claro, as ilhas Cies que (sempre) me encantam a vista. Lamento não as ter visitado em outro tempo jovem. Anyway, gosto de as ver, mesmo de longe.







Foram apenas dois dias que ali estivemos. As fotografias são à sorte das horas, manhã, noite ou tarde.








 

Um corvo marinho dirigindo-se "ao seu condomínio"...

As gaivotas são muito lindas no ar, na esteira dos barcos... mas as de terra, são  perturbadoras na sua agressividade por comer os restos, nas mesas das explanadas. Esta do double-mac, ficou com as batatas fritas, com uma voracidade... Nas praias, também se aproximam desafiadoras dos grupos e algumas, enormes, com os seus olhos amarelos e bicos agudos, fazem um certo medo. Lembram-me sempre o filme "Os Pássaros", de Hitchcock.

A "paella" em lugar conhecido de outros tempos, uma saborosa iguaria espanhola.


No dia a seguir, iríamos percorrer "mais norte", lugares de que temos outras recordações.


Os mares do Norte II

Sobre esta praia que descobrimos num acaso feliz, já escrevi aqui ou ali. Revendo o ano 2009, aparece-me no lote "dos mares do norte". O fascínio dos horizontes e pedras é tão grande que aqui ficam os aspectos de um dia, entrando no Outono. E tem a ver com a velha máquina fotográfica HP que evidencia as cores de uma forma que nenhuma me deu até agora.




As pedras são todas diferentes, ora em maciços ásperos, cortantes, ora em redondos como contornos de corpos

Caminhos amarelos
Viana ao longe

Dos bares de praia que aprecio



E, como sempre, fico a ver o pôr do sol e as suas cores de glória



Fico ali, de pensamento disperso.


O gosto de certas coisas, o filme Nomadland e a Poesia

Quando vi o filme "Nomadland", com a extraordinária actriz Frances McDormand, reparei e tentei perceber o poema que ela diz - nos seus votos de casamento - e até transcrevi a (má) tradução que apanhei:

"... Devo comparar-te a um dia de verão?..."

Encontrei o original do Soneto 18, de W. Shakespeare, em inglês antigo e da época. Tem uma cadência única. De como se escrevia o amor no séc. XVI e como é constante de beleza a poesia sobre este sentimento:

Shall I compare thee to a summer’s day?

Thou art more lovely and more temperate:

Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer’s lease hath all too short a date;
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimm'd;
And every fair from fair sometime declines,
By chance or nature’s changing course untrimm'd;
But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow’st;
Nor shall death brag thou wander’st in his shade,
When in eternal lines to time thou grow’st:
   So long as men can breathe or eyes can see,
   So long lives this, and this gives life to thee

Já não é a primeira vez que o faço, encontrar referências de assuntos que me mexem com os sentimentos: do "Out of Africa" tenho apontado não sei onde, o poema que Karen Blixen diz no enterramento do seu amado Denys Finch Hatton. Foi uma cena que me tocou imenso, nesses anos 80 em que vi o filme. E lembro-me muitas vezes da imagem que esta citação refere, sendo, para mim, "África" uma pessoa ou um lugar querido:


"If I know a song of Africa, of the giraffe and the African new moon lying on her back, of the plows in the fields and the sweaty faces of the coffee pickers, does Africa know a song of me? Will the air over the plain quiver with a color that I have had on, or the children invent a game in which my name is, or the full moon throw a shadow over the gravel of the drive that was like me, or will the eagles of the Ngong Hills look out for me?"
(texto da net)
 
Relembro os meus 10/11 anos e os seguintes: das letras de canções que ia escrevendo, ao ouvi-las na rádio. Francesas e inglesas, italianas. O sentido das coisas que eu queria absorver em pleno.

A memória das pedras ao acaso: olhando-as se adivinha o passado dos sedimentos que as foram formando, séculos, milénios. A minha memória é de décadas. Mesmo se me dói, conforta o presente incerto, o futuro incógnito. Que receio tenho de a perder... A liberdade (amorfa) que teria agora, de que fujo, recordando.