Monday, 18 May 2020

Porto em Setembro

Certamente voltavam os passos à cidade, no início do tempo que foi meu. Entre as folhas da memória, os buracos na rede, o equilíbrio das lembranças do passado, intermitentes.
Parece-me sempre andar em círculos, nos diâmetros desta cidade onde nasci. Um dia peguei num mapa e pontuei, juntei com linhas, os lugares que frequentei. Uma teia.

Todas estas casas estão agora recuperadas: especialmente esta de baixo, com a varanda coberta virada a sul, reconheço-a e gostei sempre dela: alguém também viu a situação, o seu porte elegante e se encantou, como eu (sonhei com ela há mais de 60 anos...).

Ali, recuperada para blocos de habitação e escritórios mais, evidentemente, centro comercial, era a mansão enorme e deserta cujos jardins de camélias eu espreitava da janela do quarto. Olhando no Google Earth, tenho agora a noção do enorme espaço da quinta com árvores, que ocupava um quarteirão de rua, do Rosário virando para Miguel Bombarda. Nunca lá vi ninguém!


Nesta rua de lajes grandes onde eu passava, vinda da escola, sem nunca tocar numa junção, aos saltinhos!


Estas casas eram, vagamente, residências religiosas, todas elas (quando as portas estavam por acaso abertas, eu espreitava) tinham jardim atrás. Esta tinha uma pequena capela ao fundo do quintal. Uma
vez vi lá um filme (o primeiro?) a preto e branco, projectado numa tela de pano. E era a Stª Maria Goretti, coitada, tentada pelo demónio da carne.

Vejo-me "a ver"...

Na subida da "rampa", o gradeamento e o jardim do "Palacete"


A "Ilha de Baixo" lhe chamavam

As portas que se franqueavam para o aglomerado de casinhas. Onde a Leopoldina namorava à noite, onde parava a leiteira, a padeira e a senhora que vendia doces que eu nunca podia comprar

Da última vez que lá passei, mais recentemente, já não havia a palmeira, nem nada daquela entrada do chamado "O Palacete".
Algures, entre estas paredes arruinadas, neste caminho agora de ervas... viveu a família, nasci eu.
O Jardim do Carregal, a ponte, os sempre verdes

E muito provavelmente, a mesma pedra onde me sentei e me tiraram a fotografia de menina bem comportada. Lembro-me dos sapatinhos de camurça branca e do babeiro aos quadrados azuis.


Todas as casas a seguir - e ia-se ao talho, ao vinho, à mercearia - eram de gente conhecida que se cumprimentava.

Thursday, 14 May 2020

Mudam-se os tempos II

Parque Eduardo VII.
Um passeio longo, ao cimo da elegante avenida. Uma curiosidade de ver em perspectiva a descida verde até ao rio azul.

O conjunto escultórico Monumento ao 25 de Abril, de João Cutileiro. As pedras espalhadas na base, lembrando um país que se reconstruiu, a simplificação do cravo. Eu que gosto tanto de pedras, da forma, das cores, dos veios, das arestas, delas!



E de passeio, espreitar mais acima o Jardim Amália Rodrigues, com o belo desenho paisagístico de Gonçalo Ribeiro Telles

 e uma escultura: "Maternidade" do escultor colombiano Fernando Brotero.
Um dia virei de novo aqui, espreitar o lago!


Monday, 4 May 2020

Mudam-se os tempos I

Andando pela cidade, na baixa pombalina e reparando.
Do lugar dos Teatros


TD. levou-nos a um tasco que conhecia e aí jantámos, bem, comida caseira, pondo as conversas variadas em dia.

"Sobre a nudez crua da verdade, o manto diáfano da fantasia", Eça de Queiroz no livro "A Relíquia", escultura de Teixeira Lopes, no caminho...




 Descemos com ela até ao rio e ao Cais do Sodré
E, se calhar, há-de aparecer mais vezes este belo anúncio da "Tentadora" onde parávamos sempre

Sunday, 3 May 2020

Mudam-se os tempos

e, mudando os hábitos, mudam-se as vontades.
Vou ao meu écran de fotografias cheio de files e mais files. Em duplicado, no disco externo ou, no antigamente, em dvds. E as pastas de arquivo, que será delas algum dia?
O que me dá prazer ao olhar e rever, férias e passeios e reuniões, sempre que a solidão tranquila me ataca, é pensar no bom que foi ter-se feito. Não só as doenças ou os meios económicos impedem as saídas, neste caso até as projecções das saídas: anda uma ameaça à solta. Sabemos lá se ou quando nos voltaremos a reunir!
Há mais de 2 meses que não saio, que não "estou".
Aqui me tenho alargado pelas recordações: passo à frente o tempo de férias com a família americana, os dias por cá, e vou num Agosto para Lisboa, encontrar TD e M.
Esta paisagem repetida e que nunca me cansou nos anos em que a pude fruir


Campo de Ourique, apenas um nome "de batalha" que aprendi a conhecer muito bem, cada esquina com a sua beleza própria


E, de repente, reparo: tão pouco turistas nestes lugares, estávamos em pleno Verão. Uma diferença de que me apercebi ao olhar as fotografias, agora.

Pátios de Lisboa e uma janela numa porta...



TD. era uma mulher alegre, irónica e pouco convencional. Era. De viagens, de amigos, de escolhas de que se orgulhava.
Não tivemos uma grande intimidade mas sim uma grande cumplicidade. Levava-nos a sítios muito "dela" e falava de pessoas que conheceu no passado, as suas aventuras. Tinha bastante jeito de mãos e para se arranjar, solta e alegre, num sorriso sempre aberto.
M. continua a ser a minha recente-permanente amiga de Lisboa.