Monday, 5 July 2021

Semana de Alentejo (mais profundo)

Quantas vezes escrevi/escrevo sobre "O Alentejo". Não sei, entranhou-se-me um tempo antigo - anos 60 das lutas de que mal havia notícia, 70 tão de repente, 80 mais visões e cheiros - de planícies, de amplitude, sem autoestrada, de tons de ouro e montes com árvores solitárias. Mas há outras terras Além-do-Tejo que aprendi a amar, em cada ano por ali percorrido. Se olhar para um mapa, a meio dele há um feixe de itinerários que se dispersam em leque, junto ao mar, pelo meio, pelo lado junto à fronteira, em cidades, em vilas ou aldeias.

Nestes tempos introspectivos e sem fim ou limite à vista, tem sido uma companhia rever as viagens e as visões de cada saída. E desta vez havia as novidades de Borba, Vila Viçosa, Estremoz.

Atravessar o Tejo, espreitá-lo, imaginá-lo procurando o mar

Sai-se por Almeirim, já torcendo o percurso para o interior. Onde a lenda do frade que fez a "Sopa de Pedra" sempre me chamou uma atenção curiosa. E é única, sim, uma refeição de substâncias e paladares, em mistura confortável. Por qualquer motivo, gosto de Almeirim (tirando os touros...), alargou-se com espaço harmonioso. E talvez seja por lembrar os melões que se compravam e adoçavam a minha infância.




Vendo-se de passagem o anúncio das belas cores do mármore, uma Ave de Maio, em Vila Viçosa.

Logo se procura a Herdade e se verificam as pinturas, o caiado e o azul, que tão bem caracterizam esses lugares

Foi um acaso, falarem-nos desse alojamento, quando ainda eram tão poucos. O que logo me agradou: a largueza no olhar e as casas dispersas nos montes


Evidentemente que das primeiras coisas que fiz, largando bagagem, foi andar à volta dos campos!






No meio do nada, ou quase, uma antiga casa de azenha, recuperada. Apesar de muito confortável e bonita na sua decoração simplista, o que me encantou foi mesmo estar dentro da TERRA, os caminhos. Os tons desse Maio glorioso!




Saturday, 3 July 2021

Num intervalo entre lugares de afectos I

Por pensar em Londres: do que me aparece e justifica 

o amor, ou o interesse, ou o contrário,

a visão das flores, com as peónias, de que tanto gosto, narcisos, tulipas, jacintos, nas entradas do Metro onde sempre estão os ramos, vasos e as floreiras 


 

E as coisas tão e muito pequenas que me fazem ter uma "nostálgica" vontade dessa cidade, apesar de tanto ser contra "atitudes" inglesas, pessoas, posicionamento no mundo





Lá, os anos 70 foram de preocupação, desengano, medo, trabalho. Nos 80, só sonhava de longe. Nos 90 a tentar a reconciliação e a possibilidade. Finalmente em 2015 pude andar e andar e ver e rever, atenta a pormenores, com o coração apertado pelas diferenças, alargado pela beleza

So long

com todas as possíveis ideias a que se agarram outros sentimentos

no leque imenso dos significados e intenções das palavras

Num intervalo entre lugares de afectos

Em que a magia do pensamento "pula e avança". A propósito da notícia há dias sobre a inauguração de uma escultura representando a Princesa Diana, no Kensington Palace, num dos jardins de que ela particularmente gostava: Sunken Garden. Para a comemoração do dia em que faria 60 anos (morreu com 36), o espaço foi arranjado por jardineiros, em especial com as flores que ela apreciava: rosas, tulipas, miosótis (ah... forget-me-not, tão humildes na sua mensagem azul), lavanda, dálias, ervilhas de cheiro. 

Um daqueles meus acasos, ou ocorrências ou coincidências, lembrou-me o local. Em inícios de Setembro de 1997, toda a entrada estava coberta de ramos de flores, peluches, corações e mensagens escritas. Diana, com o seu companheiro na altura Dodi Al-Fayed e um guarda costas, tinham morrido no acidente tenebroso e controverso, em Paris, no túnel da Ponte de l'Alma. Os britânicos estavam em choque bem como o mundo que a (re)conhecia e lhe chamava a Princesa do Povo.

Tanto tempo mais tarde, 2015, se percorreu o mesmo lugar, despido: apenas uma memória longínqua.



Encontrado que foi o "Sunken Garden", fui recordá-lo como o vi e senti na altura

 

Julgo que a estátua evocativa da Princesa Diana, com duas crianças pela mão, terá ficado ali ao fundo, entre aqueles dois pilares





 
 
Na roda da vida as voltas que (nos)damos.

 

Saturday, 26 June 2021

Penafiel e Vale do Tâmega I

A pensar numa rota conhecida, a Rota de Românico, de que se tem notícias há anos e se foi vendo ao acaso de saídas variadas. Aqui encontrámos a Igreja de S. Gens de Boelhe. De finais do séc. XIII, merece uma roda de passos em volta, apreciando o portal e as figuras esculpidas no duro granito do norte. Erigida num ponto estratégico na encosta, ao fundo a bela paisagem para o Rio Tâmega.

Nestas minhas deambulações e procurando preencher a memória dos factos que fui apontando, deparo-me agora com as mais diversas notícias e alertas. Ameaças alarmantes de há anos: barragens controversas, lugares desflorestados ???, praias fluviais e parques de lazer, turismos avonde e nos mais diversos lugares, baloiços sobre "paisagens" (como se as pessoas não pudessem estar quietas a olhar e a fruir os horizontes), quintas que eram "do património" e passaram a privadas, entupindo os caminhos num dead-end onde te quedas abismada... nem sei que diga! 

Passo, muda e surda, ao lugar da Igreja, detendo-me em pormenores simbólicos desgastados pelo tempo:







Seguindo para Rans e o solar Honra de Barbosa: quinta dos tempos medievais (origem românica séc. XII depois modificada) que pertenceu a Mem Moniz de Ribadouro, irmão de Egas Moniz. Pelas notícias de agora é propriedade privada.


Do enorme perímetro de construção do "solar", se vê o antigo edifício-prisão
 

e os pormenores da capela do Menino Deus, com o púlpito exterior e a inscrição de 1698



Como sempre, ando à volta, pelos muros e pelos verdes...



"Estes símbolos do prazer-ver"


Penafiel e Vale do Tâmega

A manhã cinzenta não convidava a passeios mas tínhamos combinado com a minha sogra levá-la a passear e a ver o Santuário do Sameiro, séc. XIX, em Penafiel. Igreja com nome comprido: de Nª Snrª da Piedade e Santos Passos. Vê-se como um bolo pousado num monte. Várias vezes ali passámos, na estrada abaixo, e nunca lá tínhamos subido. Também não interessa muito que estas igrejas e igrejinhas estão sempre fechadas. Dá para apreciar a paisagem e Penafiel até é uma cidade simpática. Iria confirmar essa ideia mais tarde, na Escritaria com Saramago, em Outubro 2009



E logo se põe a gente a andar por sítios esquecidos no mapa, seguindo apenas alguns sinais. Neste caso, O Menir de Luzim e as Gravuras Rupestres de Lomar.

O que se viu não foi muito, o chão estava húmido pelas chuvas recentes e os caminhos eram (mais que) agrestes. Além de que, como sempre, raramente há a indicação dos quilómetros a percorrer. Assim se vêem as pedras, as árvores e os sinais