Friday, 9 July 2021

Semana de Alentejo (mais profundo) I

As repetições são, talvez, inevitáveis. Tanta paisagem... ora de manhã, ora de tarde! E a posição do sol dá uma outra claridade, cambiantes diferentes, às terras e seus pertences. Mas para já anoitece e vai-se à chamada "capital do mármore", Vila Viçosa. Por lá se tinha passado há uma vintena de anos.

A estátua é do Prof. Bento de Jesus Caraça (1901-1048). Na base as palavras escritas são eloquentes:

 "Se não receio o erro é porque estou sempre pronto a corrigi-lo". Da biografia deste homem e professor, matemático notável, há inúmeras referências. Pelas datas e pormenores da história de vida, se entende o que teria passado no período tenebroso de Salazar. Um dos livros que escreveu foi "A cultura integral do indivíduo" e o título diz de uma filosofia de vida que nunca o abandonou. Por curiosidade e enquanto andava a ver o seu percurso da época, aqui reflicto uma frase estúpida que encontrei: ..."pessoa importante em ideologias e outras áreas...". Como é redutor limitar-se a informação!



 

E perco-me em pensamentos de enxurrada: o antigo convento de S. Paulo, ali banhado pelo dourado do fim de tarde


Foi abrigo de monges eremitas a partir do séc. XIV. Chamou-se "Convento de S.Paulo" e mais tarde Convento de Nª Snrª do Amparo. Com a extinção das ordens religiosas, passou por outras diversas mãos. No início do séc. XX foi comprado e ali funcionou uma fábrica de refinação de azeite e moagem. E como acontece "ENE" vezes em que recordo lugares por onde passei... a informação mais recente é que irá dar lugar a um grandioso hotel de luxo com resort e royal no nome. 

Lembro-me de um dito antigo: "Pobretes mas alegretes".

Nas esquinas do tempo nos quedamos...
relembrando o cheiro doce das tílias

e o tom da noite, com uma unha de Lua-vaga.



Monday, 5 July 2021

Semana de Alentejo (mais profundo)

Quantas vezes escrevi/escrevo sobre "O Alentejo". Não sei, entranhou-se-me um tempo antigo - anos 60 das lutas de que mal havia notícia, 70 tão de repente, 80 mais visões e cheiros - de planícies, de amplitude, sem autoestrada, de tons de ouro e montes com árvores solitárias. Mas há outras terras Além-do-Tejo que aprendi a amar, em cada ano por ali percorrido. Se olhar para um mapa, a meio dele há um feixe de itinerários que se dispersam em leque, junto ao mar, pelo meio, pelo lado junto à fronteira, em cidades, em vilas ou aldeias.

Nestes tempos introspectivos e sem fim ou limite à vista, tem sido uma companhia rever as viagens e as visões de cada saída. E desta vez havia as novidades de Borba, Vila Viçosa, Estremoz.

Atravessar o Tejo, espreitá-lo, imaginá-lo procurando o mar

Sai-se por Almeirim, já torcendo o percurso para o interior. Onde a lenda do frade que fez a "Sopa de Pedra" sempre me chamou uma atenção curiosa. E é única, sim, uma refeição de substâncias e paladares, em mistura confortável. Por qualquer motivo, gosto de Almeirim (tirando os touros...), alargou-se com espaço harmonioso. E talvez seja por lembrar os melões que se compravam e adoçavam a minha infância.




Vendo-se de passagem o anúncio das belas cores do mármore, uma Ave de Maio, em Vila Viçosa.

Logo se procura a Herdade e se verificam as pinturas, o caiado e o azul, que tão bem caracterizam esses lugares

Foi um acaso, falarem-nos desse alojamento, quando ainda eram tão poucos. O que logo me agradou: a largueza no olhar e as casas dispersas nos montes


Evidentemente que das primeiras coisas que fiz, largando bagagem, foi andar à volta dos campos!






No meio do nada, ou quase, uma antiga casa de azenha, recuperada. Apesar de muito confortável e bonita na sua decoração simplista, o que me encantou foi mesmo estar dentro da TERRA, os caminhos. Os tons desse Maio glorioso!




Saturday, 3 July 2021

Num intervalo entre lugares de afectos I

Por pensar em Londres: do que me aparece e justifica 

o amor, ou o interesse, ou o contrário,

a visão das flores, com as peónias, de que tanto gosto, narcisos, tulipas, jacintos, nas entradas do Metro onde sempre estão os ramos, vasos e as floreiras 


 

E as coisas tão e muito pequenas que me fazem ter uma "nostálgica" vontade dessa cidade, apesar de tanto ser contra "atitudes" inglesas, pessoas, posicionamento no mundo





Lá, os anos 70 foram de preocupação, desengano, medo, trabalho. Nos 80, só sonhava de longe. Nos 90 a tentar a reconciliação e a possibilidade. Finalmente em 2015 pude andar e andar e ver e rever, atenta a pormenores, com o coração apertado pelas diferenças, alargado pela beleza

So long

com todas as possíveis ideias a que se agarram outros sentimentos

no leque imenso dos significados e intenções das palavras

Num intervalo entre lugares de afectos

Em que a magia do pensamento "pula e avança". A propósito da notícia há dias sobre a inauguração de uma escultura representando a Princesa Diana, no Kensington Palace, num dos jardins de que ela particularmente gostava: Sunken Garden. Para a comemoração do dia em que faria 60 anos (morreu com 36), o espaço foi arranjado por jardineiros, em especial com as flores que ela apreciava: rosas, tulipas, miosótis (ah... forget-me-not, tão humildes na sua mensagem azul), lavanda, dálias, ervilhas de cheiro. 

Um daqueles meus acasos, ou ocorrências ou coincidências, lembrou-me o local. Em inícios de Setembro de 1997, toda a entrada estava coberta de ramos de flores, peluches, corações e mensagens escritas. Diana, com o seu companheiro na altura Dodi Al-Fayed e um guarda costas, tinham morrido no acidente tenebroso e controverso, em Paris, no túnel da Ponte de l'Alma. Os britânicos estavam em choque bem como o mundo que a (re)conhecia e lhe chamava a Princesa do Povo.

Tanto tempo mais tarde, 2015, se percorreu o mesmo lugar, despido: apenas uma memória longínqua.



Encontrado que foi o "Sunken Garden", fui recordá-lo como o vi e senti na altura

 

Julgo que a estátua evocativa da Princesa Diana, com duas crianças pela mão, terá ficado ali ao fundo, entre aqueles dois pilares





 
 
Na roda da vida as voltas que (nos)damos.